Olho Mágico - Vol. 8 - Nº 2 mai./ago.2001
EM QUESTÃO

 

PERSPECTIVAS DE MUDANÇA NA FORMAÇÃO DO PROFISSIONAL FISIOTERAPEUTA

Dirce Shizuko Fujisawa
Fisioterapeuta e docente do curso de Fisioterapia da UEL.
 Mestre e doutoranda em Educação na UNESP/ Marília. 

Márcia Regina Garanhani
Fisioterapeuta e docente do curso de Fisioterapia da UEL.
Especialista e mestranda na UNIFESP/São Paulo.
fit@ccs.br

A Constituição Nacional de 1988 estabelece a atenção integral à saúde como direito universal, sendo dever do Estado garanti-lo. Segundo Garrafa (1995, p. 47):

                “os compromissos do Estado frente às questões  relacionadas com a saúde das pessoas devem espelhar-se rigorosamente em alguns princípios universais como: justiça, cidadania, liberdade, participação, autonomia, igualdade e complexidade, responsabilidade, beneficência, equidade, qualidade e excelência, radicalidade, tolerância”.

Neste sentido, entende-se a saúde não como o avesso da doença, mas comoa busca do equilíbrio do ser humano, portanto, algo que deve romper os estreitos limites da assistência curativa (Chammé, 1988). A abrangência do conceito de saúde, voltado às necessidades do homem, remete à reflexão sobre o papel da universidade na formação de profissionais.

Segundo Coêlho (1998) a universidade deve ir além da profissionalização dos indivíduos, devendo  constituir-se em espaço para o exercício da reflexão e do crescimento do indivíduo, da sociedade e da cultura.

O redimensionamento da formação dos profissionais da saúde, inclusive do fisioterapeuta, voltados para o terceiro milênio, exige estratégias transformadoras nos currículos.  A implementação de disciplinas das ciências humanas proporciona visão mais consciente e crítica da realidade, para aceitá-la, rejeitá-la ou transformá-la (Marini, 1995). 

Um novo currículo para o curso de Fisioterapia da Universidade Estadual de Londrina vem sendo discutido, para implantação no ano de 2003.No novo currículo, uma constante preocupação tem sidono sentido de que todas as atividades curriculares promovam a relação entre a  teoria e a prática, que os conteúdos das diversas disciplinas sejam integrados, com eixos comuns, desenvolvidos com base no ciclo da vida (criança, adulto e idoso) e do contexto geral para o específico. Além disso, propõe-se uma prática contínua, presente em todo processo de formação,  e evolutiva, da prevenção à reabilitação. Paralelamente à reformulação curricular, atitudes e propostas metodológicas  inovadoras, incluindo novos cenários de aprendizagem, têm sido implementadas nas disciplinas profissionalizantes.  Apesar dessas ações inovadoras ocorrerem ainda de forma isolada,  é inegável  que elas possam desencadear novos adeptos e promover o aperfeiçoamento das práticas desenvolvidas.  

O processo de reestruturação do currículo foi iniciado pela ampla discussão do fazer do fisioterapeuta. Historicamente o fazer do fisioterapeuta se esgotava na perspectiva de recuperar, reabilitar e minimizar sofrimento (Rebelatto, 1987). Vale destacar, o termo reabilitar envolve  a atuação de vários profissionais, e é um processo de recuperação ativa do próprio indivíduo. A visão do homem como ser bio-psico-social, ultrapassando o ser “essencialmente biológico”, amplia a atuação do  profissional fisioterapeuta. Para a American Physical Therapy Association (1990) fisioterapia é:

“...exame, tratamento e orientação do ser humano para detectar, avaliar, prevenir, corrigir, aliviar, e limitar a desabilidade física ... com o propósito de reduzir a incidência e severidade da desabilidade física, disfunção do movimento, malformações corporais e dor”.

A competência do fisioterapeuta para Mohay (1999), vai além da existência da boa técnica. É preciso estar sensível às necessidades e às circunstâncias de vida das famílias envolvidas e dos colegas de trabalho. Para tanto, pretende-se na formação do fisioterapeuta a inclusão  de atividades na comunidade e disciplinas que desenvolvam as habilidades de comunicação verbal e não verbal. Outro aspecto fundamental a ser desenvolvido é o papel de educador, uma vez que o tratamento fisioterapêutico tem seu início na avaliação, seguido do planejamento e da execução do proposto, ainda, sendo a reavaliação  necessária durante todo o processo.

Formar profissionais competentes e experientes, e que desenvolvam o trabalho com base em evidências,  responsabilidade e amor ao seu fazer e ao próximo,   constitui-se em um desafio às instituições de ensino superior e aos docentes envolvidos.

     “... os fisioterapeutas tem um longo caminho a percorrer antes de atingirmos uma linguagem comum, fundamentada em fatos científicos, mas podemos nos beneficiar de alguns progressos sólidos nessa direção e agora, caminharmos confiantemente”  (Halesworth & Suffolk, 1994).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

CHAMMÉ, S. J. Saúde e Organização Social. Marília, UNESP, Faculdade de Educação, Filosofia, Ciências Sociais e da Documentação. 1988. (Séries Monográficas. Sociologia, 1).

COELHO, I. M. Diretrizes curriculares e ensino de graduação. Estudos 22, abril, 1998, p. 7-20.

COMMISSION ON ACREDITATION IN PHYSICAL THERAPY EDUCATION. Evaluative Criteria for Acreditation of Education Programs for the Preparation of Physical Therapy. Alexandria: American Physical Therapy Association, 1990.

GARRAFA, V. Novos paradigmas para a saúde – a ética da responsabilidade: individual e pública. Saúde em debate. Londrina, Paraná, n. 48, set., 1995, p. 47-50.

HALESWORTH, L. In : UMPHRED,  D.  A..   Fisioterapia  Neurológica.  São                      Paulo: Manole, 1994, 876p.

MARINI, T. As disciplinas humanas nos currículos de formação de profissionais da área da saúde. In: Seminário sobre o ensino odontológico no programa de cursos de educação continuada da Faculdade de Odontologia. Araçatuba: UNESP, 1995 , p. 130-39.

MOHAY, H. Focalizando a criança, a família e o terapeuta. In: BURNS, Y. R., MACDONALD, J. Fisioterapia e crescimento na infância. São Paulo : Santos Livraria Editora, 1999.

REBELATTO, J. R. & BOTOMÉ, S. P. Fisioterapia no Brasil. São Paulo: Ed. Manole, 1987. 236p.