Olho Mágico - Vol. 8 - Nº 2 mai./ago.2001
ENTREVISTA

 

No período de 16 a 19 de outubro deste ano, será realizado em Londrina o IV Congresso Brasileiro da Rede UNIDA. É um evento que reunirá profissionais da área de educação em saúde de todo o Brasil. Será um importante momento de reflexão  sobre conhecimentos e práticas inovadoras na formação de recursos humanos em saúde.

O tema central do Congresso é “Impulsionando movimentos de mudança na formação e desenvolvimento de profissionais de saúde para o SUS”. Sobre esse tema e sobre o Congresso, fala o entrevistado deste número do Olho Mágico, Prof. Márcio José de Almeida, Coordenador do evento.

1 Estão realmente acontecendo movimentos de mudança na educação dos profissionais de saúde? Esses movimentos podem ser caracterizados?

R. Sim, estao. Porque a palavra "realmente" na pergunta??!! Demonstração de que existem dúvidas a respeito, no corpo editorial do OM??!! Até o final dos anos 80 podemos dizer que existiam vontades, anseios, aspirações, reivindicações por mudanças, principalmente nas esferas das entidades que tratam do ensino na enfermagem e na medicina. E também, lógico, nos ambientes estudantis, sempre inconformados com as características do ensino de medicina e de enfermagem. Mas, nos anos 90, essas vontades adquiriram condições objetivas de avançar e desencadearam processos. Para isso foram decisivas, no Brasil, os desdobramentos da Reforma Sanitária, particularmente a construção do SUS e a iniciativa de construção da CINAEM, decorrente de um violento bombardeio que as escolas médicas sofreram no final dos anos 80. Alargando o horizonte, podemos verificar que também em outros países latino-americanos passaram a existir condições objetivas que apoiaram iniciativas, como foi o caso dos seus respectivos processos de reforma do setor saúde, das movimentações de entidades como a OPS, a FEPAFEM e a ALAFEM. Em termos de mundo, não podemos esquecer que a 1a. e a 2a. Conferências Mundiais de Educação Médica, realizadas em Edimburgo, nos anos de 1988 e 1993, também contribuiram para sistematizar vontades e fortalecer ações concretas.

A caracterização desses movimentos não é fácil, pois são processos ainda frágeis, incipientes, cheios de altos e baixos. No Brasil, as experiências mais consistentes de mudança reúnem-se em torno da Rede UNIDA. Internacionalmente, a NETWORK é uma organização que agrega as pessoas, projetos e instituições que adquiriram maior densidade nos processos de mudança. No entanto, apesar de serem processos ja com alguma sustentação própria, ainda são muito débeis se confrontados com as entidades que representam o status quo da educação dos profissionais de saúde.

2 Quais atores estão participando desses movimentos?

R. Os principais atores são os professores e os estudantes, sem dúvida nenhuma. Mas ganham peso crescente os profissionais de saúde, os gestores dos serviços de saúde e os líderes da comunidade. Na medida em que as iniciativas de mudança envolvem novos cenários de ensino como os serviços de saúde, os ambientes comunitários e as próprias residências, é interessante que os atores desses espaços tenham voz ativa nos processos de ensino-aprendizagem. Em algumas experiências, também certas entidades profissionais, como o CFM e a ABEn, adquirem papel de destaque.

3 Quais atores deveriam estar participando e não estão?

R. Bem, apesar dos professores de medicina, de enfermagem e dos outros cursos da área da saúde estarem participando, é bem verdade que nem todos. E nem com a intensidade necessária. Ou seja, dentre os professores, ha necessidade de uma maior participação dos professores do ciclo básico e das áreas cirúrgicas. Da mesma forma os estudantes. A grande maioria ainda assume uma postura cética frente as mudanças. Ao mesmo tempo em que não querem o velho/o atual, têm medo diante do novo. Mas, os grandes ausentes dos processos de mudança na formação dos profissionais de saúde continuam sendo os serviços de saúde em todos os níveis: federal, estaduais e municipais. Os gestores precisam assumir que é sim seu papel contribuir para reordenar a formação dos rhs. Está escrito lá! Na Constituição!!

4 Como a Rede UNIDA participa desses movimentos?

R. A Rede participa apoiando as iniciativas, criando situações, como é o caso do seu IV Congresso Nacional, que será realizado em Londrina, de 16 a 19 de outubro próximo, em que as experiências sejam disseminadas e as estratégias adotadas sejam discutidas. Além do Congresso, as oficinas de trabalho são outro instrumento de capacitação de novas lideranças para o desencadeamento de processos de mudança. Atualmente a Rede também tenta exercer influência nas próprias esferas de decisão das políticas de saúde e de educação. Um processo muito emblemático dessa atuação refere-se ao trabalho desenvolvido pela Rede junto ao CNE e MEC com relação as Diretrizes Curriculares. As diretrizes de três cursos foram aprovadas recentemente, medicina, enfermagem e nutrição. E quem comparar o texto final com o texto proposto ha 3 ou 4 anos pela Rede vai encontrar enormes coincidências. Sinal de que a Rede está sintonizada com as realidades dos cursos universitários, ou pelo menos, com as realidades mudancistas dos cursos...

5 Qual o papel da comunidade, dos serviços e da academia nesses movimentos?

R. Isoladamente são papéis muito limitados. Permanecendo cada um no seu ambiente e "jogando seu próprio jogo" pouco ajudam nos processos de mudança. Mas, quando esses três componentes articulam-se e definem um projeto comum, estabelecendo verdadeiras parcerias, passam a desenvolver um papel decisivo. Juntos, os atores mudancistas desses três componentes adquirem condições de enfrentar, com chance de sucesso, os atores que defendem o "status quo" em cada universidade. É claro que os atores da academia têm um peso preponderante. Assim como, quando se trata de mudanças no modelo de atenção, os atores dos serviços adquirem esse peso. Idem quando se trata de mudanças nas formas de atuação do movimento comunitário.

6 Qual o significado do Congresso da Rede UNIDA para a educação dos profissionais de saúde no Brasil?

R. Não é por acaso que na apresentação do Congresso está registrado que "este é o acontecimento mais importante, no campo da formação e desenvolvimento dos profissionais de saúde, que terá lugar no Brasil neste ano de 2001." Serão cerca de 500 participantes, de todos os estados da Federação! Praticamente todos os cursos universitários da área da saúde terão representantes no Congresso. O Congresso da Rede é um verdadeiro encontro interdisciplinar e multiprofissional. Além de professores e de estudantes, estamos recebendo inscrições de gestores dos serviços de saúde, principalmente da esfera municipal, de líderes comunitários e de líderes de outros países da América Latina, interessados em conhecer a experiência brasileira de trabalho em Rede. Tudo indica que a estimativa de 200 trabalhos científicos para serem discutidos nas sessões de apresentação "animada" dos posters será alcançada, mostrando a vitalidade dos processos de mudança que vêm ocorrendo. O tema central do Congresso é "Impulsionando movimentos de mudança na formação e desenvolvimento de profissionais de saúde para o SUS" e sob essa ótica estão programadas as mesas redondas, as conferências simultâneas, os cursos intensivos e as oficinas de trabalho. Aproveitando a oportunidade, quero recomendar ao leitor do OM que não deixe para a última hora. Faça hoje mesmo sua inscrição no Congresso. Caso não tenha uma ficha de inscrição em mãos, basta enviar um email para rede.unida@uol.com.br  Ou melhor, ainda, acesse nosso site e envie sua inscrição por internet (www.redeunida.org.br) E não se esqueça de fazer reserva de hotel e o depósito da sua taxa de inscriçao na agência bancária, conforme instruções que constam no nosso site. No mais, bem-vindos a Londrina e ao IV Congresso Nacional da Rede UNIDA!