Olho Mágico - Vol. 8 - Nº 2 mai./ago.2001
ENFOQUE

 

Impulsionando o movimento de mudanças na formação dos profissionais de saúde

Laura C.M. Feuerwerker
Médica, Mestre e Doutoranda em Saúde Pública,
Coordenadora do Programa de Apoio aos Projetos UNI.

Nos últimos anos movimentos importantes vêm sendo feitos em direção às necessárias mudanças na formação dos profissionais de saúde no Brasil.

Existe uma pressão social significativa no sentido de que as universidades busquem maior relevância social, tanto no campo da produção de conhecimentos como no campo da formação profissional (em relação ao perfil e competência dos profissionais formados e também à responsabilidade da universidade na educação permanente).

Utilizar metodologias ativas de ensino-aprendizagem, trabalhar sobre problemas da realidade, desenvolver nos estudantes as capacidades de aprender a aprender, de tomar decisões em cenários difíceis, de trabalhar em equipe multiprofissional são algumas das encomendas que a sociedade faz à universidade no sentido da atualização de sua agenda.

Ainda no campo da educação, mais alguns movimentos foram significativos no sentido de fortalecer os movimentos de mudança. Por um lado o debate em relação às diretrizes curriculares. Particularmente na área da saúde, houve uma significativa mobilização das faculdades e de outros atores relevantes no sentido de que as diretrizes pudessem significar um avanço em direção às mudanças.

De fato, as diretrizes aprovadas até o momento (medicina, enfermagem e nutrição) cumprem o papel de estimular as transformações necessárias. O próprio processo de debate das propostas de diretrizes serviu, em algumas categorias mais que em outras, para acumular forças, argumentos e elementos que serão importantes nos próximos tempos no sentido de aprofundar ou desencadear efetivamente  as mudanças.

Por outro lado, os movimentos próprios de cada carreira, especialmente na enfermagem (desde a época da adequação ao currículo mínimo) e na medicina (através da CINAEM), acumularam elementos importantes em relação ao conhecimento dos problemas enfrentados nas escolas e também em relação às alternativas para superá-los.

Apesar de todas as críticas e limitações, também o processo de avaliação estabelecido pelo Ministério da Educação – através do Provão e da Análise das Condições de Oferta – cumpriu um papel positivo no sentido de impulsionar as mudanças, principalmente através do impacto provocado dentro das escolas pela divulgação pública dos resultados da avaliação. Afinal, transparência é fundamental e a universidade deve satisfações à sociedade!

Particularmente na área da saúde, há outros elementos ainda que ajudam a criar um contexto favorável às mudanças. Tanto no campo dos serviços públicos (especialmente através da estratégia da saúde da família), como no campo dos serviços privados, há uma tendência à reorganização da atenção buscando superar o modelo centrado no hospital e no consumo abusivo de tecnologia.

Acontece que a formação inadequada dos profissionais de saúde está se tornando um obstáculo poderoso a essa reorientação do modelo, à conquista de mais qualidade e humanização da atenção, o que tem levado a que novos atores discutam e se posicionem a favor das mudanças na formação.

Existe uma possibilidade, portanto, de que o vigoroso movimento social que dá sustentação à construção do SUS apesar de todas as dificuldades impostas pela política econômica e pela nova orientação das políticas sociais, possa emprestar um pouco de sua energia ao movimento das mudanças na formação. E essa é uma oportunidade que não se pode perder.

Os movimentos de mudança da formação profissional em saúde, portanto, devem ativamente buscar mobilizar atores e recursos estratégicos da área da saúde de modo a fortalecer as possibilidades de transformação. E já estão trabalhando nesse sentido.

Assim foi em relação às diretrizes curriculares, quando, instigados pelos movimentos de mudança na formação, o Conselho Nacional de Saúde, o CONASEMS e o próprio Ministério da Saúde buscaram posicionar-se de maneira clara em relação ao perfil e às competências profissionais necessárias ao sistema de saúde.

Na mesma linha, existe uma aproximação entre a Rede UNIDA (que congrega projetos de interação universidade-serviços-comunidade) e o CONASEMS no sentido de estimular as relações entre universidades e serviços de saúde, de modo a propiciar e apoiar o desenvolvimento de cooperação técnica e de cenários mais favoráveis às mudanças na formação.

A Saúde da Família pode cumprir um papel interessante na construção das mudanças. Mesmo considerando que há problemas na implementação da estratégia e que pode haver problemas na sua própria formulação, ela congrega alguns elementos muito positivos: favorece, como nenhuma outra proposta anterior, o acolhimento, a responsabilização e o trabalho sobre as necessidades de saúde.

Além disso, propicia aos profissionais de saúde a oportunidade de resgatar sua dignidade profissional: porque favorece o estabelecimento de relações mais satisfatórias com a população (mais humanas, comprometidas e eficazes), porque oferece melhores condições de trabalho e também melhor remuneração.

Esse é um aspecto importante, que pode ser  estratégico, pois, pela primeira vez, desde que se iniciou a construção do SUS, está sendo oferecida,de maneira significativa – em termos numéricos e em todo o país– uma alternativa de inserção profissional que pode ser identificada como atraente por estudantes e profissionais de saúde. E esse é um elemento essencial para tentar mudar a imagem do que seja um profissional bem sucedido (especialista, dedicado à prática privada), que ainda é referência entre estudantes e profissionais e que se constitui numa das bases essenciais da resistência à mudança em direção a uma formação geral dentro e fora das escolas, especialmente nas corporações.

A saúde da família também pode ser um cenário muito interessante para o necessário diálogo entre saúde coletiva e clínica e para a própria reinvenção da clínica (ampliando a capacidade de intervenção dos profissionais no sentido da integralidade da atenção).

Para isso é importante aumentar e diversificar as interfaces de relação entre universidades e serviços de saúde no terreno da saúde da família, que não pode ser exclusivo da saúde coletiva nem no trabalho com os estudantes, nem nas relações de cooperação para dar conta da requalificação dos profissionais participantes das equipes.

Essa pode ser uma estratégia poderosa no sentido de favorecer as mudanças dentro da universidade: existe um novo cenário de práticas, agradável e instigante para os estudantes, interessante para clínicos e sanitaristas e que coloca questões e desafios a que nenhum dos dois grupos pode responder isoladamente.

Considerando todos esses elementos, pode-se de fato afirmar ser este um momento muito favorável às mudanças da formação dos profissionais de saúde em nosso país.

Os caminhos parecem claros: as diretrizes curriculares são uma boa indicação sobre onde se quer chegar. Estratégias eficazes para favorecer a transformação foram provadas em algumas experiências bem-sucedidas de mudanças e já são conhecidas. Alguns exemplos são: estabelecer relações de cooperação com atores externos às escolas (como os serviços de saúde e a população) que ajudem no trabalho de colocar em cheque o modelo tradicional; possibilitar que amplos contingentes de docentes tenham acesso a capacitações pedagógicas desenvolvidas de forma articulada com a construção de alternativas inovadoras para suas práticas pedagógicas; criar oportunidade para que docentes e estudantes atuem em novos cenários (como a saúde da família, a internação domiciliar, as ações intersetoriais contra a violência e contra outros problemas relevantes de saúde) etc.

Todas essas estratégias favorecem que se crie uma massa crítica de professores, que, através da prática, acumula elementos concretos para a construção de propostas alternativas para a formação profissional.

O Ministério da Saúde estuda o lançamento de uma linha de incentivos e de apoio técnico e financeiro às escolas que se engajarem em processos de mudança orientados à cooperação com os serviços de saúde e à adoção de metodologias ativas de ensino-aprendizagem. Essa linha de incentivos poderá se converter em apoio estratégico fundamental para superar as limitações físicas, financeiras e tecnológicas às iniciativas de mudança nas principais carreiras da saúde.

Parece então que falta apenas que se articulem os atores e  partir para o trabalho!