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“O IMPACTO DO
ACIDENTE COM MATERIAL BIOLÓGICO NA VIDA DE PROFISSIONAIS E ALUNOS E UM HOSPITAL
UNIVERSITÁRIO”
Cláudia Maria Dantas de Maio Carrilho[2]
Neuza da Silva Paiva[3]
Danielly Negrão Guassi[4]
Fabrício de Oliveira[4]
Maria Helena Dantas de Menezes Guariente[5]
Palavras-chave: Profissionais de saúde, exposição ocupacional, material biológico.
OCCUPATIONAL BLOOD EXPOSURES’
IMPACT IN THE HEALTH PROFESSIONALS OF A PUBLIC SCHOOL HOSPITAL
Key words: Health professionals, occupational
exposures, body fluids.
INTRODUÇÃO
A infecção pelo vírus da hepatite B (VHB) e as
suas conseqüências agudas e crônicas são problemas relevantes de saúde pública
em todo o mundo. Atualmente morrem um milhão de pessoas com cirrose, doença
crônica do fígado e carcinoma hepato-celular em conseqüência da infecção
pelo VHB (BRASIL, 1993). A hepatite B, que tem como uma das portas de entrada
do vírus o contato com o sangue por via percutânea, pode ser controlada
ou pelo menos minimizada através da triagem por testes imunológicos e com
uma política de vacinação dos profissionais e alunos da área da saúde, o
que não acontece com a AIDS. Por orientação do Center for Diseases Control
and Prevention (CDC, 1996), a Secretaria de Saúde do Estado do Paraná, instituiu
em 1998, o esquema de profilaxia anti-retroviral pós-exposição a líquidos
biológicos, ao considerar a prevalência do HIV na população e a demora no tempo do resultado do exame de sorologia do paciente fonte.
Este esquema determina que a coleta de sangue do paciente fonte e do acidentado
seja feita imediatamente após o acidente com qualquer pérfuro-cortante ou
contato de material biológico em área extensa da pele ou em mucosas. É indicado
que se inicie a quimioprofilaxia em até 2 horas após o acidente para que
ocorra a inibição do vírus HIV e os medicamentos devem ser utilizados enquanto
se aguarda o resultado do exame do paciente fonte. Em caso positivo, continua-se
com a terapêutica por 30 dias e o acidentado deve seguir as recomendações
gerais: uso de preservativos durante relação sexual, não amamentar, não
doar sangue, etc. Em relação à Hepatite B, é realizado o exame anti-HBS
AG, onde é checado o estado imunológico do acidentado para avaliar a necessidade
de prescrição ou não de gamaglobulina.
O impacto da alta
incidência dessas doenças tem gerado nos profissionais e alunos da área
da saúde uma grande preocupação com a ocorrência de acidentes com material
biológico, levando a sentimentos de medo e “stress” da contaminação com
doenças que podem ser fatais e que geralmente provocam reações de preconceito
e estigma.
Sendo assim, a
Comissão de Controle de Infecção Hospitalar de um hospital escola público,
que vem seguindo as normas preconizadas pela Secretaria de Saúde do Estado
do Paraná, sentiu a necessidade de investigar o tema.
O objetivo deste trabalho foi levantar o impacto
de um acidente com material biológico na vida de profissionais e alunos de
um hospital-escola público.
METODOLOGIA
Inicialmente foi
realizado um levantamento sobre o número de profissionais e alunos atendidos
no Pronto Socorro de um hospital-escola público, após acidente com material
biológico, entre agosto de 1998 a julho de 1999. A seguir, foi elaborado
um questionário com dados de identificação, perguntas abertas (10) e fechadas
(9) e entregue aos profissionais e alunos acidentados e atendidos nesta
instituição. Dos 37 acidentados, foi possível encontrar 20, os quais responderam
o questionário após explicação sobre a pesquisa e a manutenção do sigilo
das respostas e da identificação dos participantes.
Os dados de identificação dos acidentados com
material biológico e atendidos no Pronto-Socorro de um hospital escola público
estão demonstrados na Tabela 1.
|
Dados de
Identificação |
(f) |
(%) |
|
1- Idade 19--------------26 27--------------34 35--------------42 43--------------50 |
14 04 01 01 |
70 20 05 05 |
|
|
|
|
|
2- Sexo Feminino Masculino |
14 06 |
70 30 |
|
|
|
|
|
4- Tempo de atuação profissional 4 anos 7 anos 9 anos 12 anos 15 anos |
03 01 01 01 01 |
15 05 05 05 05 |
|
|
|
|
|
5- Ano do curso 2º Enfermagem 4º Farmácia 5º Medicina 6º Farmácia |
08 01 02 02 |
40 05 10 10 |
|
|
|
|
|
6- Tempo de atuação no setor onde ocorreu
o acidente 15 a 20 dias 1 a 6 meses 1 a 3 anos > 4 anos não responderam |
02 07 03 03 05 |
10 35 15 15 - |
Verifica-se que a maioria dos acidentados são
jovens, do sexo feminino e da área da enfermagem (docente, auxiliar de enfermagem
e aluno do Curso de Enfermagem da UEL). Analisando as rotinas de trabalho
da equipe de enfermagem, observa-se um trabalho ininterrupto junto ao paciente,
com atividades que demandam cuidados no plano físico, emocional e sócio-espiritual.
Durante os cuidados físicos estes profissionais estão expostos a patologias
graves, como as infecções causadas por material biológico, como Hepatite
B e C, Tuberculose Pulmonar, Cytomegalovirose e Síndrome da Imunodeficiência
Adquirida, reforçando a idéia de que a enfermagem é a categoria profissional
mais exposta à estas doenças que outras áreas da saúde, pelo contato mais
próximo dos pacientes e por ser a categoria que cuida das excreções destes
e manipula fômites que deverão ser lavados, desinfetados ou esterilizados.
Para FIGUEIREDO et al. (1999), um dos fatores relacionados ao alto índice
de acidentes com a equipe de Enfermagem é o abrandamento do sentimento de
pânico gerado no momento do acidente pela própria rotina do serviço.
A maior parte dos
alunos acidentados (40%), pertenciam ao 2º ano, o que pode ser justificado
pelo início dos estágios no ambiente hospitalar, onde os alunos executam
técnicas de enfermagem ainda sem o domínio pleno da habilidade motora.
TABELA 2: Distribuição da amostra pelo
tipo de acidente ocorrido.
|
Tipo de acidente |
(f) |
(%) |
||
|
Perfuração |
17 |
85 |
||
|
Respingo nos olhos |
02 |
10 |
||
|
Não especificado |
01 |
05 |
||
|
TOTAL |
20 |
100 |
||
Dados da literatura (ENNES, 1998; NEVES, 1998),
sobre pesquisa realizada neste hospital (SECCO,1999) e a tabela 2 revelam
que o tipo de acidente com material biológico mais comum é representado
pelos pérfuro-cortantes e está relacionado com o descarte incorreto destes.
Normalmente, o acidente ocorre pelo ato de recapear a agulha após o uso,
o que leva à perfuração dos dedos. Em relação às condições de segurança
no trabalho na unidade onde ocorreu o acidente, 17 (85%) responderam existir
segurança no trabalho mas 18 (90%) acidentados referiram
que não estavam disponíveis os equipamentos de proteção individual
(EPI). Faz parte da rotina deste hospital manter nas unidades áreas identificadas
para materiais sujos e limpos, assim como latas para descarte correto dos
pérfuro-cortantes. Todas as unidades também possuem em local de fácil acesso
óculos de proteção, luvas, máscaras e avental. Infelizmente, o uso de EPIs
não protege contra os acidentes causados pelos pérfuro-cortantes.
TABELA 3: Distribuição da amostra segundo
a característica positiva ou negativa do atendimento hospitalar após o acidente.
|
Características
|
ƒ |
% |
||
|
|
Ótimo |
01 |
05 |
|
|
Bom |
06 |
30 |
||
|
Rápido |
01 |
05 |
||
|
NEGATIVAS |
Desorganizado |
05 |
25 |
|
|
Confuso |
01 |
05 |
||
|
Ruim |
04 |
20 |
||
|
Não responderam |
02 |
10 |
||
|
TOTAL |
20 |
100 |
||
Pela Tabela 3 percebe-se
que houve uma divisão equilibrada entre os que consideraram positivo e os
que consideraram negativo o atendimento hospitalar após o acidente com risco
biológico. Seis entrevistados (30%) consideraram bom, seguido de 05 (25%)
que acharam desorganizado. Isto pode estar relacionado com a implantação
recente da rotina de atendimento do acidentado com material biológico, em
outubro de 1998, quando a Secretaria de Saúde do Estado do Paraná enviou
os medicamentos e as orientações a todas as unidades de saúde. Neste hospital
o atendimento clínico é feito pelo residente de plantão no Pronto Socorro
Médico e como o rodízio é freqüente, muitas vezes o atendimento fica prejudicado
pela inexperiência deste médico, como também pelas características do próprio
Pronto-Socorro, onde a equipe de saúde trabalha de forma ininterrupta e
sob constante tensão e stress.
A reação de descontentamento
com o atendimento hospitalar após o acidente foi assim manifestada por um
entrevistado: “Eu não estava informada
do que fazer, achava que só tinha que dar entrada no PS., onde fui bem atendida,
entretanto os funcionários me orientaram muito mal, entre eles havia dúvida
do que fazer, de como preencher os formulários. Os funcionários não me orientaram
bem quanto ao uso do medicamento, me deram dose errada e não falaram até
quando teria que tomar os remédios...”.
Por outro lado alguns entrevistados relataram o atendimento recebido satisfatório
como podemos observar neste relato: “Eu
procurei diretamente a médica da CCIH, que me orientou claramente e com
muita atenção, e oficializei no PS”.
Estas falas refletem
o descompasso do atendimento para acidentado com material biológico, necessitando
que seja revisto na instituição esta rotina, tanto para quem atende quanto
para quem é atendido.
A tabela 4 apresenta a categorização das manifestações dos entrevistados
sobre os sentimentos relacionados ao acidente.
TABELA 4: Distribuição da amostra quanto
às reações emocionais no momento do acidente.
|
REAÇÕES EMOCIONAIS |
ƒ |
% |
||
|
Insegurança |
03 |
13,5 |
||
|
Desespero |
03 |
13,5 |
||
|
Preocupação |
06 |
27,5 |
||
|
Indiferença |
03 |
13,5 |
||
|
Medo |
05 |
23,0 |
||
|
Frustração |
01 |
4,5 |
||
|
Tranqüilidade |
01 |
4,5 |
||
|
TOTAL |
22 |
100 |
||
*Houve mais de uma reação emocional citada pelos entrevistados.
A maioria dos profissionais/alunos
apresentou como reação emocional o sentimento de preocupação, que pode estar
relacionado com os conhecimentos adquiridos sobre os riscos que o acidente
proporciona à vítima. Assim 2 acidentados manifestaram-se: “No
momento em que me furei...nada, fiquei
super tranqüila. Mas depois que “caiu a ficha”, me desesperei”. “Pânico, medo de me haver contaminado, me senti só, sem ninguém. Graças
a uma amiga me acalmei, pois ela ficou comigo o tempo todo”. Com o advento
da AIDS, acidentes de trabalho com material pérfuro-cortante tornaram-se
novamente uma preocupação constante nos hospitais (MORALEZ, 1992).
TABELA 5: Distribuição
da amostra com material biológico quanto às razões da notificação.
|
Razões
da notificação |
ƒ |
% |
|
|
Orientação recebida |
07 |
41 |
|
|
Apoio (emocional, clínico...) |
05 |
29 |
|
|
Rotina |
02 |
12 |
|
|
Dúvida pessoal |
01 |
06 |
|
|
Não respondeu |
02 |
12 |
|
|
TOTAL |
17 |
100 |
|
*Houve mais de uma razão citada pelos entrevistados
Neste hospital
a CCIH e a Divisão de Educação e Treinamento realizam cursos abordando as
condutas frente aos acidentes com material biológico, que incluem a notificação.
Através das falas dos entrevistados observamos que 41% referiram a orientação
pela instituição, chefias e/ou colegas como a razão para notificação do
acidente. A educação em saúde para os profissionais e alunos sobre a notificação
em caso de acidente com material biológico tem sido uma constante preocupação
neste serviço. O relato da notificação pela orientação foi citado por um
dos acidentados desta maneira:
“Porque já havia sido orientada antes que se
ocorresse algum acidente deveria ser notificado”.
Já a rotina e o
apoio como justificativa da notificação foi apresentada/relatada da seguinte
forma:
“Porque faz parte do procedimento correto da
nossa área de atuação, contando com o apoio da equipe e com o tratamento
se necessário”.
Segundo dados do
Hospital Emílio Ribas, referência nacional em doenças infecciosas, de São
Paulo, cerca de 50% dos acidentes não são notificados (SEGATO & DAFLON,
1999). Estes autores afirmam que o Brasil não dispõe de registro oficial
sobre infectados em acidentes de trabalho. É possível que haja casos sem
notificação, pois cabe aos Estados encaminhar os comunicados ao governo
federal.
TABELA 6: Distribuição da amostra quanto
aos efeitos colaterais durante a quimioprofilaxia.
|
Efeitos colaterais |
ƒ |
% |
||
|
Náuseas |
11 |
30,0 |
||
|
Gosto amargo na boca |
03 |
8,0 |
||
|
Anorexia |
02 |
5,4 |
||
|
Astenia |
02 |
5,4 |
||
|
Mal estar geral |
06 |
16,2 |
||
|
Dor abdominal |
01 |
2,7 |
||
|
Tontura |
03 |
8,0 |
||
|
Diarréia |
02 |
5,4 |
||
|
Epigastralgia |
02 |
5,4 |
||
|
Cansaço |
01 |
2,7 |
||
|
Sono |
02 |
5,4 |
||
|
Vômitos |
01 |
2,7 |
||
|
Nenhum efeito colateral |
01 |
2,7 |
||
|
TOTAL |
37 |
100 |
||
Segundo dados publicados
na revista Época (julho/1999), cerca de 20% dos acidentados não suportam
os efeitos do coquetel e abandonam o tratamento (SEGATO & DAFLON, 1999).
O coquetel (AZT + 3 TC + Indinavir) causa muitos efeitos colaterais e a
adesão à terapêutica é freqüentemente prejudicada devido à intolerância
digestiva (PUSTIGLIONE, 1998).
Dos 20 acidentados, 11 (70%)
responderam não terminar o tratamento quimioprofilático por 3 razões, como
mostra a Tabela 7:
TABELA 7: Distribuição da amostra quanto
às razões para a não conclusão do tratamento quimioprofilático.
|
RAZÕES |
ƒ |
% |
||
|
Sorologia negativa do paciente fonte |
06 |
46 |
||
|
Decisão própria |
02 |
15 |
||
|
Efeitos colaterais |
03 |
24 |
||
|
Não respondeu |
02 |
15 |
||
|
TOTAL |
13 |
100 |
||
* Houve mais de uma razão citada pelos entrevistados.
“Não terminei o tratamento porque os exames
da paciente comprovaram que não existia nenhum tipo de risco e por não agüentar
os efeitos da medicação”. Esta
frase de um dos entrevistados resume os 2 motivos mais freqüentes da decisão
de parar o tratamento, pois 06 (46%) relataram sorologia negativa do paciente
fonte e 3 (24%) consideraram que os efeitos colaterais foram os responsáveis
pelo término do tratamento. Segundo o CDC (1996), a probabilidade de aquisição
do vírus HIV, durante acidente com pérfuro-cortante, é de 0,3%; para o HCV
e HBV o risco sobre para 3 e 30%, respectivamente. Desde o aparecimento da
AIDS, 54 profissionais de saúde americanos foram infectados pelo HIV após
acidente com material biológico (SEGATTO & DAFLON, 1999). Neste estudo
observa-se que 06 (46%) dos entrevistados não completaram o tratamento após
receber a informação da sorologia negativa do paciente fonte. Esta conduta
é recomendada pelo CDC. Já 03 acidentados (24%) relataram a suspensão do tratamento
devido aos efeitos colaterais e 02 (15%) por decisão de ordem pessoal. A tomada
de decisão destes pode estar relacionada ao conhecimento de que a probabilidade
de contaminação pelo HIV é mínima (0,3%). Contudo o risco existe e as pessoas
acidentadas com material biológico preferencialmente devem dar continuidade
e concluir o tratamento quimioprofilático.
TABELA 8: Comportamento dos colegas/funcionários
do setor de trabalho frente à situação do acidente com material biológico.
|
COMPORTAMENTO |
ƒ |
% |
||
|
Indiferença |
04 |
20 |
||
|
Manifestação de solidariedade |
05 |
25 |
||
|
Orientação |
09 |
45 |
||
|
Desconhecimento |
01 |
05 |
||
|
Pena |
01 |
05 |
||
|
TOTAL |
20 |
100 |
||
Dos 20 acidentados,
09 (45%) relataram que receberam orientações dos colegas de trabalho após
o acidente, como mostra a frase a seguir: “Minha professora procurou informações imediatamente pelo telefone para
saber o que fazer, me acompanhou desde o posto de saúde até o hospital”.
Dos 20 participantes, 05 (25%) citaram a manifestação de solidariedade:
“Todos foram solidários e atenciosos comigo”.
A manifestação de indiferença pelos colegas (20%) foi colocada da seguinte
maneira: “Ninguém fez nada”.
TABELA 9: Distribuição da amostra segundo
o comportamento profissional após o acidente com material biológico.
|
Comportamento |
ƒ |
% |
||
|
Mais atenciosa |
10 |
50 |
||
|
Sem alteração |
07 |
35 |
||
|
Medo |
02 |
10 |
||
|
Coloca-se no lugar do paciente |
01 |
05 |
||
|
TOTAL |
20 |
100 |
||
O comportamento de mais atenção
nas atividades foi manifestado por 10 entrevistados (50%), e pode ser assim
evidenciado: “Hoje penso mil vezes
em fazer tudo com muito cuidado, observando os princípios e procuro estar
bem concentrada ao realizar qualquer atividade”.
Sete acidentados (35%) referiram
não ter mudado em nada seu comportamento, sendo assim relatado por todos:
“O mesmo de sempre, foi apenas um
acidente”.
O comportamento de não aceitar desenvolver algumas atividades provavelmente
pelo medo de acidentar-se novamente também apareceu: “Quando não estou muito legal eu peço para
a chefe instrumentar”.
TABELA 10: Distribuição da amostra segundo
a repercussão do acidente na vida profissional.
|
Repercussão |
ƒ |
% |
||
|
Receosa durante procedimentos invasivos |
04 |
20 |
||
|
Nenhuma |
07 |
35 |
||
|
Mais consciente |
01 |
05 |
||
|
Mais seguro |
02 |
10 |
||
|
Mais preocupação com o paciente |
01 |
05 |
||
|
Medo |
01 |
05 |
||
|
Preocupação |
01 |
05 |
||
|
Mais cuidado |
01 |
05 |
||
|
Não responderam |
02 |
10 |
||
|
TOTAL |
20 |
100 |
||
A tabela 10 mostra
um dado importante: dos 20 acidentados com material biológico, 07 (35%)
relataram que o acidente não causou nenhuma repercussão na vida profissional,
o que pode ser reforçado pelo artigo de FIGUEIREDO et al (1999): “Pela rotina do dia a dia, torna-se banal os
acidentes com materiais de risco biológico para muitos dos profissionais
da área de saúde”. Este sentimento de indiferença também foi manifestado
por um dos entrevistados: “O mesmo
de antes, sempre fui atencioso”. A manifestação de indiferença é entendida
pelo conhecimento dos baixos riscos de contaminação, que somada à rotina
instituída da quimioprofilaxia reduz ainda mais os riscos. Por outro lado,
a reportagem de SEGATTO & DAFLON (1999), da Revista Época, cita que
esses acidentes podem destruir a vida dos profissionais: “Nunca
mais tive uma relação sexual e não me sinto preparada para ter um novo companheiro”.
“Tomei AZT por alguns dias, minha família entrou em desespero e resolvi
abandonar o trabalho”. Há relatos de acidentados que até hoje fazem
acompanhamento psiquiátrico, mas não conseguem se inserir novamente na sociedade.
Na nossa realidade a repercussão do acidente entre os profissionais e alunos
se manifestou de várias maneiras, com reações emocionais desde medo, preocupação
consigo e com os pacientes: “Nunca
mais vou recapear agulhas”,
ou “Presto mais atenção para que não aconteça
novamente”.
Os 20 entrevistados (100%)
responderam acreditar que AIDS e Hepatite podem ser transmitidas após acidente
com material biológico. Este dado reproduz o nível de conhecimento destes
profissionais e alunos sobre as doenças transmissíveis, tema que tem sido
amplamente divulgado na instituição por vários setores, como Comissão de
Controle de Infecção Hospitalar, Divisão de Educação e Treinamento e Setor
de Medicina do Trabalho (NUBEC).
Conclui-se com
este trabalho que é mais freqüente os acidentes com materiais biológicos
nos membros da equipe de enfermagem e o tipo de acidente mais comum é o
causado pelos pérfuro-cortantes, não sendo evitados pelos equipamentos de
proteção individual. Tão importante quanto colocar à disposição os EPIs
é promover campanhas para a conscientização dos profissionais e alunos sobre
o descarte adequado dos materiais pérfuro-cortantes, em locais adequados
para evitar os acidentes. Um acidente com material biológico, pelo risco
de aquisição de doenças que podem matar, como AIDS e Hepatite B, comumente
traria repercussões importantes na vida pessoal e profissional, mas foi
verificado neste trabalho que 35% dos acidentados referiram nenhuma mudança
na vida profissional ou acadêmica após o acidente. Muitos que se acidentaram
tornaram-se mais atentos durante o trabalho, outros não mudaram seu comportamento
e há aqueles que solicitaram mudança de função por não conseguirem executar
mais o mesmo procedimento causador do acidente. Passar por esta situação
também propicia ao profissional acidentado uma reflexão sobre a assistência
mais humanizada ao paciente, como este relato nos mostra.
“Eu me pus do outro lado (o do paciente), comecei a imaginar como eu queria
ser tratada e agora tento me dedicar mais, tratando melhor as pessoas. Eu
conheci o outro lado”. Esta frase revela muito dos discursos dos entrevistados
que passaram por esta exposição, pois estes acidentes podem abalar sua vida.
Recomendamos a
realização de novas pesquisas abordando as reações dos acidentados com material
biológico, propiciando assim espaço, onde as pessoas possam falar por si
mesmas, desvelando a sua realidade, interagindo e ensinando-se mutuamente
(GUARIENTE,1997).
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Ministério da Saúde. Fundação Nacional de Saúde. Departamento de Operações,
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Nacional de Imunização. Brasília, 1993.
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CONTROLE DE INFECÇÃO E EPIDEMIOLOGIA HOSPITALAR, 6, 1998, Campos do Jordão.
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FERLIM, C. Auto-Avaliação: recurso pedagógico na
efetivação de uma Proposta acadêmica no ensino de enfermagem. Dissertação
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Campinas, 1995.
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GUARIENTE, M.H. D.M. Aspectos Pedagógicos
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Dissertação (Mestrado). Universidade Estadual de Londrina, Londrina, 1997.
LAZZARINI, M. P. T. et. al. Implantação de um
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MORALEZ, R. F. Opinião dos Servidores de um
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CONGRESSO BRASILEIRO DE CONTROLE DE INFECÇÃO E EPIDEMIOLOGIA HOSPITALAR,
6, 1998, Campos do Jordão. Anais..., Campos do Jordão, 1998, p.94.
PUSTIGLIONE, M.
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NACIONAL DE PESQUISA EM ENFERMAGEM, 1999, Gramado/RS. Anais..., Gramado, 1999, p.183.
SEGATTO, C.; DAFLON,
R. Quando o Medo Veste Branco. Época - Cad. de Ciência e Tecnologia,
p.89-90, 12 julho 1999.
[1]
Enfermeira, Coordenadora da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar
do Hospital Universitário Regional do Norte do Paraná.
[2]
Médica da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar do Hospital Universitário
Regional do Norte do Paraná.
[3]
Funcionária Técnico-Administrativo da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar
do Hospital Universitário Regional do Norte do Paraná.
[4]
Alunos do 2º ano do Curso de Enfermagem da Universidade Estadual de Londrina
[5]
Professora do Curso de Enfermagem da Universidade Estadual de Londrina e
Coordenadora do Núcleo de Pesquisa em Enfermagem do Hospital Universitário
Regional do Norte do Paraná.