“O IMPACTO DO ACIDENTE COM MATERIAL BIOLÓGICO NA VIDA DE PROFISSIONAIS E ALUNOS E UM HOSPITAL UNIVERSITÁRIO”

 Renata Aparecida Belei[1]
Cláudia Maria Dantas de Maio Carrilho[2]
Neuza da Silva Paiva[3]
Danielly Negrão Guassi[4]
Fabrício de Oliveira[4]
Maria Helena Dantas de Menezes Guariente[5]

RESUMO

 Acidente com materiais biológicos tem sido um problema freqüentemente vivenciado pelo staff hospitalar. Pesquisas da incidência dessa questão vêm sendo realizadas com grande ênfase. Contudo, a percepção do envolvido no acidente, em nosso meio, é pouco evidenciada. Procurou-se então levantar com pessoas que vivenciaram estas situações, suas reações frente ao evento e ao risco de adquirir doenças graves, como a AIDS e Hepatite B. Foi aplicado um questionário a profissionais e alunos acidentados e atendidos no Pronto-Socorro de um Hospital Escola Público. A tabulação e análise quanti-qualitativa dos dados evidenciou que o acidente de maior ocorrência é do tipo pérfuro-cortante e a população mais atingida são os alunos de enfermagem. Verificou-se, que apesar de todos os transtornos proporcionados por este tipo de acidente, 35% dos entrevistados referiram nenhuma mudança na vida profissional ou acadêmica após o acidente.

Palavras-chave: Profissionais de saúde, exposição ocupacional, material biológico.

 

OCCUPATIONAL BLOOD EXPOSURES’ IMPACT IN THE HEALTH PROFESSIONALS  OF A PUBLIC SCHOOL HOSPITAL

 

ABSTRACT

Occupational blood exposures have been a frequent and important problem evolving the health professionals, specially hospital staff. However, in spite of many recent studies, these professionals selves behave when involved in these accidents remains unknown. To analyze the attitudes, behavior and scares to get AIDS or hepatitis B, questionnaire were applied to health students and professionals attended in an emergency unit of a public school hospital, victim of blood. Nurse students were the mainly accomited subpopulation and needlestick injuries was the most frequent occupational exposures. Despite of the upset, 35% of the interview did not alter professional behavior after the accident.

Key words: Health professionals, occupational exposures, body fluids.

INTRODUÇÃO

O acidente com material biológico tem sido um problema freqüentemente vivenciado pelo staff hospitalar, pois o trabalho neste ambiente geralmente expõe seus profissionais a inúmeros riscos. A literatura revela número aumentado de acidentes com material biológico entre profissionais da saúde devido à falta de esclarecimento (RODRIGUES, 1997).

A infecção pelo vírus da hepatite B (VHB) e as suas conseqüências agudas e crônicas são problemas relevantes de saúde pública em todo o mundo. Atualmente morrem um milhão de pessoas com cirrose, doença crônica do fígado e carcinoma hepato-celular em conseqüência da infecção pelo VHB (BRASIL, 1993). A hepatite B, que tem como uma das portas de entrada do vírus o contato com o sangue por via percutânea, pode ser controlada ou pelo menos minimizada através da triagem por testes imunológicos e com uma política de vacinação dos profissionais e alunos da área da saúde, o que não acontece com a AIDS. Por orientação do Center for Diseases Control and Prevention (CDC, 1996), a Secretaria de Saúde do Estado do Paraná, instituiu em 1998, o esquema de profilaxia anti-retroviral pós-exposição a líquidos biológicos, ao considerar a prevalência do HIV na população e a  demora no tempo do resultado do exame de sorologia do paciente fonte. Este esquema determina que a coleta de sangue do paciente fonte e do acidentado seja feita imediatamente após o acidente com qualquer pérfuro-cortante ou contato de material biológico em área extensa da pele ou em mucosas. É indicado que se inicie a quimioprofilaxia em até 2 horas após o acidente para que ocorra a inibição do vírus HIV e os medicamentos devem ser utilizados enquanto se aguarda o resultado do exame do paciente fonte. Em caso positivo, continua-se com a terapêutica por 30 dias e o acidentado deve seguir as recomendações gerais: uso de preservativos durante relação sexual, não amamentar, não doar sangue, etc. Em relação à Hepatite B, é realizado o exame anti-HBS AG, onde é checado o estado imunológico do acidentado para avaliar a necessidade de prescrição ou não de gamaglobulina.

O impacto da alta incidência dessas doenças tem gerado nos profissionais e alunos da área da saúde uma grande preocupação com a ocorrência de acidentes com material biológico, levando a sentimentos de medo e “stress” da contaminação com doenças que podem ser fatais e que geralmente provocam reações de preconceito e estigma.

Sendo assim, a Comissão de Controle de Infecção Hospitalar de um hospital escola público, que vem seguindo as normas preconizadas pela Secretaria de Saúde do Estado do Paraná, sentiu a necessidade de investigar o tema.

O objetivo deste trabalho foi levantar o impacto de um acidente com material biológico na vida de profissionais e alunos de um hospital-escola público.

METODOLOGIA

Adotou-se para a coleta e análise dos dados deste estudo a abordagem quanti-qualitativa. Os dados apresentados quantitativamente englobam a identificação da amostra e a incidência do tipo mais freqüente de acidente ocorrido na instituição. Os dados qualitativos são referentes às perguntas abertas que abordaram sentimentos frente à situação do acidente, tratamento e repercussões na vida pessoal e profissional. Para tanto, foi realizada análise de discurso das falas emitidas pelo entrevistados, sendo classificadas por categorias, que segundo MINAYO apud FERLIM (1995), “em geral se refere a um conceito que abrange elementos ou aspectos com características comuns ou que se relacionam entre si. Essa palavra está ligada a idéia de classe ou série. As categorias são empregadas para se estabelecer classificações. Nesse sentido, trabalhar com elas significa agrupar elementos, trabalhar com elas significa em torno de um conceito capaz de abranger tudo isso”.

Inicialmente foi realizado um levantamento sobre o número de profissionais e alunos atendidos no Pronto Socorro de um hospital-escola público, após acidente com material biológico, entre agosto de 1998 a julho de 1999. A seguir, foi elaborado um questionário com dados de identificação, perguntas abertas (10) e fechadas (9) e entregue aos profissionais e alunos acidentados e atendidos nesta instituição. Dos 37 acidentados, foi possível encontrar 20, os quais responderam o questionário após explicação sobre a pesquisa e a manutenção do sigilo das respostas e da identificação dos participantes.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os dados de identificação dos acidentados com material biológico e atendidos no Pronto-Socorro de um hospital escola público estão demonstrados na Tabela 1.

TABELA 1: Dados de identificação dos acidentados com material biológico atendidos no Pronto Socorro de um Hospital Escola Público.

Dados de Identificação

(f)

(%)

1- Idade

           19--------------26

           27--------------34

           35--------------42

           43--------------50

 

14

04

01

01

 

70

20

05

05

 

 

 

2- Sexo

           Feminino

           Masculino

 

14

06

 

70

30

 

 

 

4- Tempo de atuação profissional

4   anos

7   anos

9   anos

12 anos

15 anos

 

03

01

01

01

01

 

15

05

05

05

05

 

 

 

5- Ano do curso

2º Enfermagem

4º Farmácia

5º Medicina

6º Farmácia

 

08

01

02

02

 

40

05

10

10

 

 

 

6- Tempo de atuação no setor onde ocorreu o acidente

15 a 20 dias

1 a 6 meses

1 a 3 anos

> 4 anos

não responderam          

 

02

07

03

03

05

 

10

35

15

15

-

 

Verifica-se que a maioria dos acidentados são jovens, do sexo feminino e da área da enfermagem (docente, auxiliar de enfermagem e aluno do Curso de Enfermagem da UEL). Analisando as rotinas de trabalho da equipe de enfermagem, observa-se um trabalho ininterrupto junto ao paciente, com atividades que demandam cuidados no plano físico, emocional e sócio-espiritual. Durante os cuidados físicos estes profissionais estão expostos a patologias graves, como as infecções causadas por material biológico, como Hepatite B e C, Tuberculose Pulmonar, Cytomegalovirose e Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, reforçando a idéia de que a enfermagem é a categoria profissional mais exposta à estas doenças que outras áreas da saúde, pelo contato mais próximo dos pacientes e por ser a categoria que cuida das excreções destes e manipula fômites que deverão ser lavados, desinfetados ou esterilizados. Para FIGUEIREDO et al. (1999), um dos fatores relacionados ao alto índice de acidentes com a equipe de Enfermagem é o abrandamento do sentimento de pânico gerado no momento do acidente pela própria rotina do serviço.

A maior parte dos alunos acidentados (40%), pertenciam ao 2º ano, o que pode ser justificado pelo início dos estágios no ambiente hospitalar, onde os alunos executam técnicas de enfermagem ainda sem o domínio pleno da habilidade motora.

 

 TABELA 2: Distribuição da amostra pelo tipo de acidente ocorrido.

Tipo de acidente

(f)

(%)

Perfuração

17

85

Respingo nos olhos

02

10

Não especificado

01

05

TOTAL

20

100

 

Dados da literatura (ENNES, 1998; NEVES, 1998), sobre pesquisa realizada neste hospital (SECCO,1999) e a tabela 2 revelam que o tipo de acidente com material biológico mais comum é representado pelos pérfuro-cortantes e está relacionado com o descarte incorreto destes. Normalmente, o acidente ocorre pelo ato de recapear a agulha após o uso, o que leva à perfuração dos dedos. Em relação às condições de segurança no trabalho na unidade onde ocorreu o acidente, 17 (85%) responderam existir segurança no trabalho mas 18 (90%) acidentados referiram  que não estavam disponíveis os equipamentos de proteção individual (EPI). Faz parte da rotina deste hospital manter nas unidades áreas identificadas para materiais sujos e limpos, assim como latas para descarte correto dos pérfuro-cortantes. Todas as unidades também possuem em local de fácil acesso óculos de proteção, luvas, máscaras e avental. Infelizmente, o uso de EPIs não protege contra os acidentes causados pelos pérfuro-cortantes.

 

TABELA 3: Distribuição da amostra segundo a característica positiva ou negativa do atendimento hospitalar após o acidente.

Características

ƒ

%

 
POSITIVAS

Ótimo

01

05

Bom

06

30

Rápido

01

05

 

NEGATIVAS 

Desorganizado

05

25

Confuso

01

05

Ruim

04

20

Não responderam

02

10

TOTAL

20

100

 

Pela Tabela 3 percebe-se que houve uma divisão equilibrada entre os que consideraram positivo e os que consideraram negativo o atendimento hospitalar após o acidente com risco biológico. Seis entrevistados (30%) consideraram bom, seguido de 05 (25%) que acharam desorganizado. Isto pode estar relacionado com a implantação recente da rotina de atendimento do acidentado com material biológico, em outubro de 1998, quando a Secretaria de Saúde do Estado do Paraná enviou os medicamentos e as orientações a todas as unidades de saúde. Neste hospital o atendimento clínico é feito pelo residente de plantão no Pronto Socorro Médico e como o rodízio é freqüente, muitas vezes o atendimento fica prejudicado pela inexperiência deste médico, como também pelas características do próprio Pronto-Socorro, onde a equipe de saúde trabalha de forma ininterrupta e sob constante tensão e stress.

A reação de descontentamento com o atendimento hospitalar após o acidente foi assim manifestada por um entrevistado: “Eu não estava informada do que fazer, achava que só tinha que dar entrada no PS., onde fui bem atendida, entretanto os funcionários me orientaram muito mal, entre eles havia dúvida do que fazer, de como preencher os formulários. Os funcionários não me orientaram bem quanto ao uso do medicamento, me deram dose errada e não falaram até quando  teria que tomar os remédios...”. Por outro lado alguns entrevistados relataram o atendimento recebido satisfatório como podemos observar neste relato: “Eu procurei diretamente a médica da CCIH, que me orientou claramente e com muita atenção, e oficializei no PS”.

Estas falas refletem o descompasso do atendimento para acidentado com material biológico, necessitando que seja revisto na instituição esta rotina, tanto para quem atende quanto para quem é atendido.

A tabela 4 apresenta a categorização das manifestações dos entrevistados sobre os sentimentos relacionados ao acidente.

 

TABELA 4: Distribuição da amostra quanto às reações emocionais no momento do acidente.

REAÇÕES EMOCIONAIS

ƒ

%

Insegurança

03

13,5

Desespero

03

13,5

Preocupação

06

27,5

Indiferença

03

13,5

Medo

05

23,0

Frustração

01

4,5

Tranqüilidade

01

4,5

TOTAL

22

100

*Houve mais de uma reação emocional citada pelos entrevistados.

 

A maioria dos profissionais/alunos apresentou como reação emocional o sentimento de preocupação, que pode estar relacionado com os conhecimentos adquiridos sobre os riscos que o acidente proporciona à vítima. Assim 2 acidentados manifestaram-se: “No momento em que me furei...nada, fiquei  super tranqüila. Mas depois que “caiu a ficha”, me desesperei”. Pânico, medo de me haver contaminado, me senti só, sem ninguém. Graças a uma amiga me acalmei, pois ela ficou comigo o tempo todo”. Com o advento da AIDS, acidentes de trabalho com material pérfuro-cortante tornaram-se novamente uma preocupação constante nos hospitais (MORALEZ, 1992).

 

 TABELA 5: Distribuição da amostra com material biológico quanto às razões da notificação.

Razões da notificação

ƒ

%

Orientação recebida

07

41

Apoio (emocional, clínico...)

05

29

Rotina

02

12

Dúvida pessoal

01

06

Não respondeu

02

12

TOTAL

17

100

*Houve mais de uma razão citada pelos entrevistados

 

Neste hospital a CCIH e a Divisão de Educação e Treinamento realizam cursos abordando as condutas frente aos acidentes com material biológico, que incluem a notificação. Através das falas dos entrevistados observamos que 41% referiram a orientação pela instituição, chefias e/ou colegas como a razão para notificação do acidente. A educação em saúde para os profissionais e alunos sobre a notificação em caso de acidente com material biológico tem sido uma constante preocupação neste serviço. O relato da notificação pela orientação foi citado por um dos acidentados desta maneira:

Porque já havia sido orientada antes que se ocorresse algum acidente deveria ser notificado”.

Já a rotina e o apoio como justificativa da notificação foi apresentada/relatada da seguinte forma:

Porque faz parte do procedimento correto da nossa área de atuação, contando com o apoio da equipe e com o tratamento se necessário”.

Segundo dados do Hospital Emílio Ribas, referência nacional em doenças infecciosas, de São Paulo, cerca de 50% dos acidentes não são notificados (SEGATO & DAFLON, 1999). Estes autores afirmam que o Brasil não dispõe de registro oficial sobre infectados em acidentes de trabalho. É possível que haja casos sem notificação, pois cabe aos Estados encaminhar os comunicados ao governo federal.

 

TABELA 6: Distribuição da amostra quanto aos efeitos colaterais durante a quimioprofilaxia.

Efeitos colaterais

ƒ

%

Náuseas

11

30,0

Gosto amargo na boca

03

8,0

Anorexia

02

5,4

Astenia

02

5,4

Mal estar geral

06

16,2

Dor abdominal

01

2,7

Tontura

03

8,0

Diarréia

02

5,4

Epigastralgia

02

5,4

Cansaço

01

2,7

Sono

02

5,4

Vômitos

01

2,7

Nenhum efeito colateral

01

2,7

TOTAL

37

100

 

Segundo dados publicados na revista Época (julho/1999), cerca de 20% dos acidentados não suportam os efeitos do coquetel e abandonam o tratamento (SEGATO & DAFLON, 1999). O coquetel (AZT + 3 TC + Indinavir) causa muitos efeitos colaterais e a adesão à terapêutica é freqüentemente prejudicada devido à intolerância digestiva (PUSTIGLIONE, 1998).

Dos 20 acidentados, 11 (70%) responderam não terminar o tratamento quimioprofilático por 3 razões, como mostra a Tabela 7:

 

TABELA 7: Distribuição da amostra quanto às razões para a não conclusão do tratamento quimioprofilático.

RAZÕES

ƒ

%

Sorologia negativa do paciente fonte

06

46

Decisão própria

02

15

Efeitos colaterais

03

24

Não respondeu

02

15

TOTAL

13

100

* Houve mais de uma razão citada pelos entrevistados.

 

“Não terminei o tratamento porque os exames da paciente comprovaram que não existia nenhum tipo de risco e por não agüentar os efeitos da medicação”. Esta frase de um dos entrevistados resume os 2 motivos mais freqüentes da decisão de parar o tratamento, pois 06 (46%) relataram  sorologia negativa do paciente fonte e 3 (24%) consideraram que os efeitos colaterais foram os responsáveis pelo término do tratamento. Segundo o CDC (1996), a probabilidade de aquisição do vírus HIV, durante acidente com pérfuro-cortante, é de 0,3%; para o HCV e HBV o risco sobre para 3 e 30%, respectivamente. Desde o aparecimento da AIDS, 54 profissionais de saúde americanos foram infectados pelo HIV após acidente com material biológico (SEGATTO & DAFLON, 1999). Neste estudo observa-se que 06 (46%) dos entrevistados não completaram o tratamento após receber a informação da sorologia negativa do paciente fonte. Esta conduta é recomendada pelo CDC. Já 03 acidentados (24%) relataram a suspensão do tratamento devido aos efeitos colaterais e 02 (15%) por decisão de ordem pessoal. A tomada de decisão destes pode estar relacionada ao conhecimento de que a probabilidade de contaminação pelo HIV é mínima (0,3%). Contudo o risco existe e as pessoas acidentadas com material biológico preferencialmente devem dar continuidade e concluir o tratamento quimioprofilático.

 

TABELA 8: Comportamento dos colegas/funcionários do setor de trabalho frente à situação do acidente com material biológico.

COMPORTAMENTO

ƒ

%

Indiferença

04

20

Manifestação de solidariedade

05

25

Orientação

09

45

Desconhecimento

01

05

Pena

01

05

TOTAL

20

100

 

Dos 20 acidentados, 09 (45%) relataram que receberam orientações dos colegas de trabalho após o acidente, como mostra a frase a seguir: “Minha professora procurou informações imediatamente pelo telefone para saber o que fazer, me acompanhou desde o posto de saúde até o hospital”. Dos 20 participantes, 05 (25%) citaram a manifestação de solidariedade: “Todos foram solidários e atenciosos comigo”. A manifestação de indiferença pelos colegas (20%) foi colocada da seguinte maneira: “Ninguém fez nada”.

 

TABELA 9: Distribuição da amostra segundo o comportamento profissional após o acidente com material biológico.

Comportamento

ƒ

%

Mais atenciosa

10

50

Sem alteração

07

35

Medo

02

10

Coloca-se no lugar do paciente

01

05

TOTAL

20

100

 

O comportamento de mais atenção nas atividades foi manifestado por 10 entrevistados (50%), e pode ser assim evidenciado: “Hoje penso mil vezes em fazer tudo com muito cuidado, observando os princípios e procuro estar bem concentrada ao realizar qualquer atividade”.

Sete acidentados (35%) referiram não ter mudado em nada seu comportamento, sendo assim relatado por todos: “O mesmo de sempre, foi apenas um acidente”.

 O comportamento de não aceitar desenvolver algumas atividades provavelmente pelo medo de acidentar-se novamente também apareceu: “Quando não estou muito legal eu peço para a chefe instrumentar”.

 

TABELA 10: Distribuição da amostra segundo a repercussão do acidente na vida profissional.

 

Repercussão

ƒ

%

Receosa durante procedimentos invasivos

04

20

Nenhuma

07

35

Mais consciente

01

05

Mais seguro

02

10

Mais preocupação com o paciente

01

05

Medo

01

05

Preocupação

01

05

Mais cuidado

01

05

Não responderam

02

10

TOTAL

20

100

 

A tabela 10 mostra um dado importante: dos 20 acidentados com material biológico, 07 (35%) relataram que o acidente não causou nenhuma repercussão na vida profissional, o que pode ser reforçado pelo artigo de FIGUEIREDO et al (1999): “Pela rotina do dia a dia, torna-se banal os acidentes com materiais de risco biológico para muitos dos profissionais da área de saúde”. Este sentimento de indiferença também foi manifestado por um dos entrevistados: “O mesmo de antes, sempre fui atencioso”. A manifestação de indiferença é entendida pelo conhecimento dos baixos riscos de contaminação, que somada à rotina instituída da quimioprofilaxia reduz ainda mais os riscos. Por outro lado, a reportagem de SEGATTO & DAFLON (1999), da Revista Época, cita que esses acidentes podem destruir a vida dos profissionais: “Nunca mais tive uma relação sexual e não me sinto preparada para ter um novo companheiro”. “Tomei AZT por alguns dias, minha família entrou em desespero e resolvi abandonar o trabalho”. Há relatos de acidentados que até hoje fazem acompanhamento psiquiátrico, mas não conseguem se inserir novamente na sociedade. Na nossa realidade a repercussão do acidente entre os profissionais e alunos se manifestou de várias maneiras, com reações emocionais desde medo, preocupação consigo e com os pacientes: “Nunca mais vou recapear agulhas”, ou “Presto mais atenção para que não aconteça novamente”.

Os 20 entrevistados (100%) responderam acreditar que AIDS e Hepatite podem ser transmitidas após acidente com material biológico. Este dado reproduz o nível de conhecimento destes profissionais e alunos sobre as doenças transmissíveis, tema que tem sido amplamente divulgado na instituição por vários setores, como Comissão de Controle de Infecção Hospitalar, Divisão de Educação e Treinamento e Setor de Medicina do Trabalho (NUBEC).

 CONCLUSÃO

 Os riscos de acidentes com material biológico existem em todas as unidades de saúde. É fundamental a participação dos profissionais e alunos em treinamentos para atualização sobre as normas de Biossegurança. Também é relevante o papel das chefias das unidades em supervisionar e incentivar o uso dos Equipamentos de Proteção Individual, que são barreiras fundamentais na prevenção dos acidentes com material biológico. Apesar das instituições de saúde colocarem à disposição as normas e técnicas de Biossegurança, os profissionais ainda se acidentam com materiais de risco.

Conclui-se com este trabalho que é mais freqüente os acidentes com materiais biológicos nos membros da equipe de enfermagem e o tipo de acidente mais comum é o causado pelos pérfuro-cortantes, não sendo evitados pelos equipamentos de proteção individual. Tão importante quanto colocar à disposição os EPIs é promover campanhas para a conscientização dos profissionais e alunos sobre o descarte adequado dos materiais pérfuro-cortantes, em locais adequados para evitar os acidentes. Um acidente com material biológico, pelo risco de aquisição de doenças que podem matar, como AIDS e Hepatite B, comumente traria repercussões importantes na vida pessoal e profissional, mas foi verificado neste trabalho que 35% dos acidentados referiram nenhuma mudança na vida profissional ou acadêmica após o acidente. Muitos que se acidentaram tornaram-se mais atentos durante o trabalho, outros não mudaram seu comportamento e há aqueles que solicitaram mudança de função por não conseguirem executar mais o mesmo procedimento causador do acidente. Passar por esta situação também propicia ao profissional acidentado uma reflexão sobre a assistência mais humanizada ao paciente, como este relato nos mostra. “Eu me pus do outro lado (o do paciente), comecei a imaginar como eu queria ser tratada e agora tento me dedicar mais, tratando melhor as pessoas. Eu conheci o outro lado”. Esta frase revela muito dos discursos dos entrevistados que passaram por esta exposição, pois estes acidentes podem abalar sua vida.

Recomendamos a realização de novas pesquisas abordando as reações dos acidentados com material biológico, propiciando assim espaço, onde as pessoas possam falar por si mesmas, desvelando a sua realidade, interagindo e ensinando-se mutuamente (GUARIENTE,1997).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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[1] Enfermeira, Coordenadora da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar do Hospital Universitário Regional do Norte do Paraná.
[2] Médica da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar do Hospital Universitário Regional do Norte do Paraná.
[3] Funcionária Técnico-Administrativo da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar do Hospital Universitário Regional do Norte do Paraná.
[4] Alunos do 2º ano do Curso de Enfermagem da Universidade Estadual de Londrina
[5] Professora do Curso de Enfermagem da Universidade Estadual de Londrina e Coordenadora do Núcleo de Pesquisa em Enfermagem do Hospital Universitário Regional do Norte do Paraná.

 

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