QUALIDADE  DE VIDA  DOS  PROFISSIONAIS  DE  ENFERMAGEM

 

Maria do Carmo Lourenço Haddad[1]

 

 

RESUMO

 

A qualidade de vida no trabalho é o maior determinante da qualidade de vida. Vida sem trabalho não tem significado...  Assim sendo, o trabalho passou a ocupar um lugar central na vida do homem, mais especificamente o trabalho organizacional. Através da revisão da literatura, verifica-se que não há uma definição consensual a respeito de qualidade de vida no trabalho, mas sim várias correntes ou abordagens. Porém esse tema esta freqüentemente associado à melhoria das condições físicas do servidor, programas de lazer, estilo de vida, instalações organizacionais adequadas, atendimento a reivindicações dos trabalhadores e ampliações do conjunto de benefícios. Entretanto, o atendimento a essas necessidades, envolvem custos adicionais, o que já é obstáculo para a implantação de programas de qualidade de vida no trabalho. Considerando os aspectos acima mencionados, este estudo tem por objetivos refletir sobre o processo de trabalho da enfermagem e propor a implantação de um Programa Interdisciplinar de Apoio ao Trabalhador de Enfermagem que promova e mantenha a qualidade de vida no trabalho.

 

Palavras-chave: Qualidade de vida, sofrimento no trabalho, interdisciplinariedade, administração em enfermagem

 

LIFE QUALITY OF NURSING PROFESSIONALS

 

ABSTRACT

 

Life quality at work is a major determinant in life quality itself. Life with no work has no meaning... Therefore, work has been playing a central role in man's life, the organizational work more specifically. Through a literature review, one can see that there is no consensual definition concerning life quality at work, but in fact, several trends and approaches. Nevertheless, this theme is frequently associated to the improvement of physical conditions of the worker, leisure activities, life styles, adequate organizational facilities, workers' demands, and expansion of benefits. However, meeting these needs implies additional costs which is an obstacle for the implementation of life quality programs at work. Considering the topics above, this study aims at a reflection upon the process of the nursing practice and at proposing the implementation of an Interdisciplinary Program for Assisting the Nursing Worker in order to promote and maintain life quality at work.

 

Key words:  life quality, work hardship/suffering at work, interdisciplinarity, nursing administration

 

 

INTRODUÇÃO

 

O desenvolvimento científico, tecnológico e social tem alterado substancialmente o modo de viver do homem moderno, criando novas necessidades a serem atendidas. Entre outras, o homem necessita de reconhecimento e prestígio social e é através do exercício profissional e nas relações de trabalho onde ele dispõe de maiores oportunidades para atender a essas necessidades.

A sociedade vive uma época de transição. As modificações que ocorrem nos tempos modernos, são precedidas por tumultuosas variações nos costumes do indivíduo e no estabelecimento de suas prioridades pessoais e organizacionais. Mas nunca as mudanças foram tão rápidas, tão radicais e desconcertantes como agora, podendo acarretar problemas físicos e psicológicos.

E, decorrente desse descompasso entre a velocidade das mudanças e a capacidade humana de adaptar-se a elas, surgem reações como a insatisfação generalizada com o modo de vida, o tédio, a angústia, as ambigüidades, a ansiedade, a despersonalização, a frustração e a alienação no trabalho, entre outras. Esses fatores constituem-se na essência de mecanismos de autodefesa do homem, evidenciando assim a deterioração da qualidade de vida nos dias atuais.

A qualidade de vida no trabalho é o maior determinante da qualidade de vida. Vida sem trabalho não tem significado...  Assim sendo, na sociedade contemporânea, o trabalho passou a ocupar um lugar central na vida do homem, mais especificamente o trabalho organizacional.  De acordo com HANDY (1978) apud MORENO (1991), o trabalho dever ser visto como parte inseparável da vida humana, talvez sendo hoje a organização o principal meio para o homem adquirir sua identidade. O trabalho também é determinante de aspectos vitais como status e identidade pessoal.

FERNANDES (1988) afirma que não há uma definição consensual a respeito de qualidade de vida no trabalho, mas sim várias correntes ou abordagens. Porém esse tema esta freqüentemente associado à melhoria das condições físicas do servidor, programas de lazer, estilo de vida, instalações organizacionais adequadas, atendimento a reivindicações dos trabalhadores e ampliações do conjunto de benefícios. Entretanto, o atendimento a essas necessidades, envolvem custos adicionais, o que já é obstáculo para a implantação de programas de qualidade de vida no trabalho.

No entender de WALTON (1973), qualidade de vida no trabalho visa proteger o empregado e propiciar-lhe melhores condições de vida dentro e fora da organização.

Segundo este autor para que a qualidade de vida no trabalho seja alcançada é necessário que o trabalhador tenha:

·      COMPENSAÇÃO ADEQUADA E JUSTA

Refere-se ao salário justo ou à adequação entre o trabalho e o pagamento nos seus diversos níveis relacionados entre si.

·      CONDIÇÕES DE SEGURANÇA E SAÚDE NO TRABALHO

Os trabalhadores não devem ser expostos a condições físicas e psicológicas que sejam perigosas ou a horários excessivos de trabalho que sejam prejudiciais a saúde

·      OPORTUNIDADE IMEDIATA PARA A UTILIZAÇÃO E DESENVOLVIMENTO DA CAPACIDADE  HUMANA

Para que os trabalhadores possam usar e desenvolver suas habilidades e capacidades são necessários: autonomia no trabalho, utilização de múltiplas habilidades, informação e perspectiva de crescimento profissional, realização de tarefas completas e planejamento das atividades.

·      OPORTUNIDADE  PARA CRESCIMENTO CONTÍNUO E SEGURANÇA

     É importante que o trabalhador tenha a possibilidade de autodesenvolvimento, aquisição de novos conhecimentos e perspectivas de sua aplicação prática, oportunidades de promoções e segurança no emprego.

·      INTEGRAÇÃO SOCIAL NA ORGANIZAÇÃO

      Para haver um bom nível de integração social é necessário que o ambiente de trabalho seja sem preconceitos, de senso comunitário, fraca estratificação, existência de mobilidade ascendente e franqueza interpessoal.

·      CONSTITUCIONALISMO NA ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO

São as normas que estabelecem os direitos e deveres dos trabalhadores. Os aspectos  mais significativos versam sobre a privacidade, a liberdade de expressão ( o diálogo livre) e o tratamento justo em todos os assuntos.

·      TRABALHO E O ESPAÇO TOTAL DA VIDA

O trabalho, muitas vezes,  absorve parte da vida extra-organização do empregado, afetando consideravelmente o seu tempo de dedicação à família, tempo de lazer e sua convivência comunitária.

·      A RELEVÂNCIA SOCIAL DA VIDA NO TRABALHO

     Os trabalhadores, através de seus empenhos e comprometimentos, esperam que, socialmente, a instituição não deprecie o seu trabalho e conseqüentemente a sua profissão.

 

Considerando os aspectos acima mencionados, este estudo tem por objetivos refletir sobre o processo de trabalho da enfermagem e propor a implantação de um Programa Interdisciplinar de Apoio ao Trabalhador de Enfermagem que promova e mantenha a qualidade de vida no trabalho.

 

 

O DESENVOLVIMENTO DO PROCESSO DE TRABALHO DA ENFERMAGEM

 

A enfermagem é uma profissão essencialmente feminina, relacionada com o ato de cuidar do outro. Vários autores, citados por BORSOI & CODO (1995), reforçam que o cuidar em enfermagem é uma extensão das atividades realizadas na manutenção da família.

SILVA (1986) descreve que etimologicamente a expressão enfermagem vem da palavra nurse que originalmente significa aquela que nutre, que cuida de crianças e que por extensão, a que assiste o doente. O termo enfermeira, em português, é designado para as pessoas que cuidam dos infirmus, ou seja, daqueles que não estão firmes, como crianças, velhos e doentes.

Com estas características, o trabalho de enfermagem, foi executado até o final da idade média, por religiosas, viúvas, virgens e nobres, tendo como objetivo central a caridade. As revoluções sociais ocorridas neste período, incorporaram também neste grupo, as prostitutas que buscavam a própria salvação prestando cuidados aos enfermos. Denota-se ainda, a desvalorização do trabalho de cuidar ao relegá-lo a este grupo social. 

Na Europa, até o início do século XIX, o cuidar de enfermos não era reconhecido como trabalho que exigia treinamento específico para sua realização. A partir do ano de 1854, este cuidado começa a ter caráter profissional com Florence Nightingale, nobre dama inglesa, que serviu na  Criméia como voluntária  nos hospitais militares ingleses em pleno campo de guerra, dando início a profissionalização da  enfermagem. Após seis anos, em reconhecimento ao trabalho de Nightingale o governo inglês financiou a organização da primeira escola para formação de trabalhadores de enfermagem, já estabelecendo separação entre enfermeiras administradoras e prestadoras de cuidados (SILVA, 1986).

No Brasil, somente nas últimas décadas do século XIX, é que  inicia-se  o processo de profissionalização da enfermagem. A partir dos anos 30, com a mudança no sistema econômico, o crescente aumento de doentes que necessitavam de internações e a formalização da enfermagem como profissão, concretiza-se a entrada maciça das mulheres nas instituições de saúde, confirmando que este trabalho tem característica essencialmente feminina. Nesta época, a caridade continuava tendo sua importância, mas as diferenças fundamentais foram as exigências de treinamento e remuneração no ato de cuidar (SILVA, 1986).

Segundo BORSOI & CODO (1995), o cuidado tornado profissão deixa de ser executado pela afetividade expressa e espontânea, seja na forma de carinho ou na forma de agressão, como pode ocorrer no ambiente doméstico. O trabalhador de enfermagem é preparado para auxiliar na recuperação do doente ou assisti-lo em sua dor. Ao remunerar o cuidado prestado, espera-se qualidade e para isso é necessário além do domínio das técnicas  media-lo por afetividade, nem que a expressão deste afeto seja uma representação necessária, pois um dos códigos internalizados pela enfermagem é a devoção e generosidade em relação ao paciente.

O trabalho da enfermagem direcionado para um cuidar holístico do paciente, necessitou ser fragmentado para melhorar a organização e a produtividade do serviço, especializando os funcionários em executores de funções específicas. Assim, enquanto um trabalhador realiza cuidados básicos de alimentação e higiene do doente, outro administra os medicamentos e outro faz os curativos, etc.. Segundo BORSOI & CODO (1995), esta é uma divisão de trabalho semelhante ao de uma linha de montagem na qual quem circula é o funcionário. Desta forma, os trabalhadores se transformam em força de trabalho a ser objetivada e comprada de acordo com a demanda da função. Por decorrência, o trabalho de cuidar adquire o caráter de mercadoria, que produz efeitos danosos na saúde e no psiquismo do trabalhador.

Este aspecto introduz elementos contraditórios na relação de cuidado do paciente. Enquanto na prestação de cuidados se exige expressão de afeto na medida em que, na relação constante com o paciente, lida-se com sua dor, sua dependência e sua intimidade. Por outro lado, esse cuidado é mediado por pelo menos três fatores complicantes e interrelacionados, tais como: o salário, que é a fonte de sobrevivência do trabalhador; o fantasma da perda do paciente, seja por alta ou por óbito; e a obrigação de se mostrar frente ao paciente sempre como profissional, não lhe sendo permitido expressar preferências ou recusas, atração ou repulsa, por este ou aquele paciente.

Os trabalhadores de enfermagem prestam cuidados aos doentes, independente de serem adultos, crianças, homens, mulheres, se sua doença é visível ou não,  se é contagiosa ou não, enfim o cuidado tem que ser prestado considerando as especificidades dos quadros clínicos, mas não a aparência ou o caráter do paciente enquanto pessoa, o que significa que não deve haver discriminação de espécie alguma. O doente seja ele quem for, deve ser cuidado como alguém que busca alívio e ou cura para seu sofrimento. Para isso a enfermagem tem que prestar seus cuidados com técnicas adequadas a fim de tornar a estadia do paciente no hospital curta e o menos dolorosa possível.

A dinâmica do trabalho de enfermagem não leva em consideração os  problemas do trabalhador, onde cada indivíduo enfrenta no seu cotidiano dificuldades de toda ordem, fora e dentro do trabalho, mas se espera do profissional que ele jamais expresse junto ao paciente seus dissabores, ao contrário , espera-se serenidade. O modelo de mãe cuidadosa e abnegada é introjetado pela enfermagem.

DEJOURS et al. (1994) afirmam que "a organização do trabalho exerce sobre o homem uma ação específica, cujo impacto é o aparelho psíquico. Em certas condições emerge um sofrimento que pode ser atribuído ao choque entre uma história individual, portadora de projetos, de esperanças e de desejos e uma organização do trabalho que os ignora."

BELAND e PASSOS (1978) consideram que as necessidades pessoais do trabalhador de enfermagem e sua ansiedade em relação às circunstâncias com as quais ele se defronta geralmente prejudicam o tipo de atendimento que ele sabe dar e que gostaria de poder dar, podendo causar um sofrimento no profissional.

HADDAD et al. (1985), em estudo realizado em um hospital oncológico constataram um despreparo emocional do trabalhador de enfermagem no cuidado com pacientes terminais. A equipe sentia-se ansiosa diante da aplicação de tratamentos agressivos, como a quimioterapia que provoca efeitos colaterais intensos e visíveis. Relataram que os profissionais não sentiam-se preparados para enfrentar a morte do paciente, expressando sentimentos de impotência profissional. Muitas vezes a equipe de enfermagem identifica-se com os pacientes temendo que lhes possa acontecer a mesma coisa e sentem-se culpados quando o paciente morre.

Observa-se que  a formação do profissional de enfermagem, seja a nível de graduação ou auxiliar está baseado na teoria de TAYLOR (FIGUEIREDO et al., 1996), exigindo dos trabalhadores uma dedicação extremada, pois constantemente estão sendo "vigiados" pelos médicos ou outros profissionais da equipe de saúde, por administradores, e até mesmo por seus colegas e pelos doentes ou seus familiares.

Estudos desenvolvidos por DEJOURS et al. (1994), criticam o modelo taylorista e demonstram que é a organização do trabalho a responsável pelas conseqüências penosas ou favoráveis para o funcionamento psíquico do trabalhador.

Esse autor afirma que contra o sofrimento, a ansiedade e a insatisfação se constroem sistemas defensivos. Apesar de vivenciado, o sofrimento não é reconhecido.  Se a função primeira dos sintomas de defesa, é aliviar o sofrimento, seu poder de ocultação volta-se contra os seus criadores. Pois sem conhecer a forma e o conteúdo desse sofrimento, é difícil lutar eficazmente contra ele. Ressalta, ainda, que a ideologia defensiva é funcional a nível do grupo, de sua coesão, de sua coragem e é importante também a nível do trabalho, pois é a garantia da produtividade.

Verifica-se também, que na maioria das instituições a preocupação com a ergonomia, ainda é pequena, tornando o trabalho da enfermagem ainda mais penoso. Muitas vezes, a planta física é inadequada ao tipo de atendimento, os equipamentos e materiais de uso diário não favorecem a execução da técnica, há falta de material para realização da tarefa, o número de trabalhadores é reduzido para quantidade e características dos pacientes, entre outras dificuldades.

Nos dias atuais, o número de pacientes que necessitam de tratamento especializado aumentou, exigindo uma assistência mais eficaz e também com o desenvolvimento tecnológico da medicina, observa-se que o trabalho da enfermagem  tem causando um grande desgaste físico e psicológico aos trabalhadores. Esses, na maioria das vezes não sabem nem identificar o que está acontecendo, mas reagem faltando ao serviço, em muitos casos agridem os próprios pacientes ou seus colegas e superiores, não seguem as normas e rotinas da empresa. Em decorrência da sobrecarga de trabalho e do sofrimento psíquico podem apresentar doenças como hipertensão arterial, diabetes mellitus, distúrbios ortopédicos, neurológicos, gástricos e psicológicos, etc..

Acrescido a esses fatores, encontram-se as dificuldades sócio-econômicas enfrentadas por estes profissionais, pois como o  trabalho de enfermagem recebe baixa remuneração, torna-se necessário que o funcionário mantenha duas jornadas de trabalho para poder sustentar sua família e ter uma vida digna. Neste contexto, há uma baixa qualidade de vida no trabalho da enfermagem, além de aumentar os riscos de iatrogênias                                          e acidentes no trabalho.

 

 

PROGRAMA INTERDISCIPLINAR DE APOIO AO TRABALHADOR DE ENFERMAGEM

 

Para que a equipe de enfermagem possa prestar uma assistência adequada aos pacientes, com seus sentimentos de impotência profissional, ansiedade e medo minimizados, necessita receber apoio e acompanhamento de uma equipe interdisciplinar composta por profissionais especializados, que possa auxiliar o servidor na identificação do seu sofrimento e no entendimento da dinâmica do trabalho de enfermagem, além de desenvolver programas de prevenção e manutenção da qualidade de vida no trabalho.

Considerando todos os aspectos acima levantados e fundamentados em nossa prática profissional, onde somos responsável por 850 trabalhadores de enfermagem que atuam num hospital escola, e também nas dificuldades no enfrentamento de todos os problemas sociais e administrativos, que se assemelham aos que foram descritos, acreditamos que somente um trabalho efetivo e desenvolvido por uma equipe interdisciplinar, poderá estabelecer estratégias que minimizem os problemas vividos tanto pelos trabalhadores que atuam diretamente com o paciente como também por administradores dos serviços de enfermagem.

Sugerimos que esta equipe seja constituída por psicólogo organizacional, assistente social, enfermeiro, pedagogo, sociólogo e médico, com a finalidade de desenvolver um Programa de Apoio ao Trabalhador de Enfermagem. Outros profissionais poderão ser incluídos na equipe de acordo com as necessidades  da instituição. Ressaltamos que este grupo deverá ser administrativa e politicamente vinculado a divisão de recursos humanos da instituição. 

ZANELLI (1994) descreve que existem várias possibilidades de abordar os problemas que ocorrem no contexto do trabalho, ressaltando que alguns autores insistem em demarcar a área do psicólogo, do sociólogo, do administrador, do antropólogo, do economista, etc. É óbvio que na prática, esses limites apresentam-se retóricos e uma multiplicidade de fatores intercruzam-se na produção dos fenômenos organizacionais, em qualquer de seus níveis. O campo dos estudos organizacionais faz parte do domínio de profissionais provenientes de diversas disciplinas científicas, muitas vezes com considerável superposições entre si.

Fundamentados nos estudos realizados por WALTON (1983), MOTTA (1991), ZANELLI (1994) e HADDAD (1998), esta equipe poderá realizar as seguintes atividades: 

. recrutamento, seleção e colocação de pessoal - considerando que o profissional de enfermagem desempenha uma atividade que pode provocar desgastes físicos e psíquicos é necessário que esta equipe recrute e selecione profissionais com capacidades técnicas, físicas e emocionais compatíveis com as necessidades do serviço.

No processo de seleção deverão ser utilizados instrumentos que avaliem a capacidade técnica do candidato como também sua capacidade emocional em enfrentar situações críticas. Poderá ser utilizado além dos instrumentos escritos, a técnica de entrevista coletiva, onde será avaliado a resposta do candidato em comparação aos demais.

É muito importante o acompanhamento do indivíduo durante o período de integração e adaptação à instituição, proporcionando oportunidades de familiarizá-lo com os objetivos, filosofia e dinâmica do hospital. 

. avaliação de desempenho - este processo é considerado complexo e desagradável para muitos gerentes, mesmo quando existem sistemas de avaliações padronizados. Portanto é necessário que esta equipe prepare e acompanhe os avaliadores, destacando sempre que o importante é o relacionamento entre chefia e subordinado, e que uma boa comunicação e parceria no trabalho, aumentam a produtividade e qualidade do serviço. Quando o trabalhador é ouvido e respeitado pelos seus superiores, com certeza realiza suas tarefas com mais envolvimento e responsabilidade.

. treinamento e desenvolvimento de pessoal - esta é uma das atividades mais importantes para serem desempenhadas por esta equipe. O treinamento em serviço é o processo pelo qual não só se capacita o profissional tecnicamente, mas principalmente desenvolve nos trabalhadores o senso crítico e a motivação para a gerência participativa. Através deste processo poderão ser partilhadas as responsabilidades e as dificuldades encontradas no serviço.

É importante ressaltar que os treinamentos deverão ser realizados durante o horário de trabalho, através de metodologias ludo-pedagógicas e dinâmicas de grupos, possibilitando a participação ativa do trabalhador. Os conteúdos deverão sempre ser determinados em conjunto com chefias e funcionários.

Nesta atividade é muito importante refletir juntamente com o servidor sobre as políticas trabalhistas e a necessidade de desenvolverem-se profissionalmente, estimulando-os a freqüentarem outros cursos que os capacite para promoção dentro da instituição ou mesmo fora dela.

. desenvolvimento organizacional, solução de problemas e tomada de decisões - Implantar programas de desenvolvimento e acompanhamento permanente dos líderes de equipe é extremamente necessário. Uma das principais solicitações dos gerentes é: "qual estratégia posso utilizar para manter a equipe motivada e produtiva para o trabalho, diante de salários tão baixos?", entre outros questionamentos.

O relacionamento entre subordinados e chefia é uma das principais causas de baixa qualidade de vida no trabalho. Portanto, esta equipe deverá assessorar os gerentes no desenvolvimento e manutenção das relações interpessoais.

Deverá também, prepará-los tecnicamente para implantação de modernas práticas de administração dos serviços e principalmente incentivá-los e apoiá-los a assumirem riscos.

Esta equipe poderá desenvolver programas de Qualidade Total, através de ferramentas que analisem as opiniões dos cliente externos e internos, propondo através da administração colegiada, estratégias que garantam a qualidade da assistência e a qualidade de vida dos trabalhadores.

. desenvolvimento de  programas de qualidade de vida no trabalho -  desenvolver programas para promoção e manutenção da qualidade de vida no trabalho, conscientização do trabalhador sobre lazer e preparação dos funcionários para aposentadorias, além de manter programas de promoção e manutenção da saúde mental no trabalho, tais como o “Momento da palavra” ( FRANÇA e RODRIGUES, 1997).

É também função da equipe, avaliar as condições ambientais e materiais nos locais de trabalho, solicitando melhorias nas instalações físicas e emitindo pareceres sobre os materiais e equipamentos hospitalares.

Várias pesquisas demonstram que os profissionais da saúde não usam equipamentos  de segurança individual como forma de negar a natureza insalubre  do seu trabalho. Portanto, é necessário que a equipe realize campanhas de conscientização sobre a necessidade do uso desta proteção a sua saúde (SCHENEIDER, 1994; MIRANDA, 1998).

Identificar os setores que produzem estresse no trabalhador. Avaliar a produtividade, rotatividade e absenteísmo, os custos psicológicos e fisiológicos do trabalho. Realizar avaliação e acompanhamento do trabalhador com disfunções psicológicas.

. identificação da cultura organizacional - a dinâmica do trabalho da enfermagem é muito complexa, portanto a equipe interdisciplinar deve estar em sintonia com a administração e desenvolver mecanismos para identificar a motivação no trabalho, as atitudes pessoais frente a determinados assuntos, a satisfação pessoal, moral e clima no trabalho, formação e funcionamento dos grupos no trabalho, resolução de conflitos interpessoais e intergrupais, desenvolvimento de lideranças, avaliação das estruturas do poder, etc..

Este processo é uma das atividades mais complexas e demoradas que deve ser desenvolvido pela equipe, mas que trará muitos subsídios para os administradores, principalmente das instituições públicas que mudam de governantes a cada 4 anos.

Recomendamos que as instituições que pretendam desenvolver este estudo exijam que os novos administradores analisem profundamente a cultura do hospital antes de iniciarem seu trabalho.

A equipe poderá recorrer aos estudos realizados por SHINYASHIKI (1995), que fez um amplo levantamento bibliográfico sobre cultura organizacional. O autor destaca que no processo de mudança da cultura, o conceito de socialização torna-se cada vez mais útil para o administrador planejar ações que podem ser tomadas no nível das políticas de recursos humanos para manter ou desencadear um processo de mudança. Entretanto, reconhece o quanto o processo de socialização é complexo para identificar os pressupostos básicos que sofrem influência pela socialização ocorrida na empresa, enfatizando que o processo de planejamento de mudanças precisa ser mediado pela cultura organizacional.

 

 

CONSIDERAÇÕES  FINAIS

 

Para atingir seus objetivos é necessário que a equipe interdisciplinar de apoio ao trabalhador de enfermagem, trabalhe com harmonia, desenvolvendo suas atividades através da identificação dos problemas, do planejamento e avaliação constante dos resultados obtidos, sempre em conjunto com a administração e  trabalhadores. 

ZANELLI (1996) ressalta que “nascemos e morremos dentro das  organizações de trabalho. As sociedades se organizam em função do trabalho. O trabalho é  um núcleo definidor do sentido da existência humana. Toda a nossa vida é baseada no trabalho, portanto, devemos torná-lo o mais prazeroso possível.”

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

BELLAND, I. L.; PASSOS, J. Y.  Enfermagem clínica; aspectos fisiopatológicos e psicossociais.  São Paulo: EPU/ Edusp, 1978.  V. 1.  p.446.

BORSOI, I. C. F.; CODO, W.  Enfermagem, trabalho e cuidado.  Petrópolis: Vozes, 1995.  cap.8:  Sofrimento psíquico nas organizações: saúde mental e trabalho.  p.39-151.

DEJOURS, C.; ABDOUCHELI, E.; JAYET C.   Psicodinâmica do trabalho: Contribuição da escola Dejouriana à análise da relação prazer, sofrimento e trabalho.  São Paulo:  Atlas, 1994.  145p.

FERNANDES, E. C.  Qualidade de vida no trabalho (QVT); a renovação das empresas para os anos noventa. Tendências do trabalho. Rio de Janeiro, ago. 1988, p.10-12.

FIGUEIREDO, N. M. A.; FRANCISCO, M. T.; SILVA, I. C. M.  (Trans) Cuidar: (Re)visitando a administração de Taylor “um outro paradigma”.  Campos: UERG, 1996.  88p.

FRANÇA, A.C.L.; RODRIGUES. A. L.  Stress e trabalho: guia básico com abordagens psicossomática. São Paulo: Atlas, 1977.

HADDAD, M.C.L.  et al.  Importância do apoio psicológico aos enfermeiros que assistem pacientes terminais.  Revista enfermagem moderna.,  Rio de Janeiro, v. 3, n. 2,  p.9-16,  abr./ mai./ jun. 1985.

______________.  Proposta de implantação de um programa interdisciplinar de apoio ao trabalhador de enfermagem.  Rev. Esc. Enf. USP, v.32, n.4, p.307-13, dez. 1998.

MIRANDA. R.C.  Introdução a saúde no trabalho.  Rio de  Janeiro: Atheneu, 1998.

MORENO, N. A.  Qualidade de vida no trabalho: uma análise das características da tarefa de profissionais bibliotecários atuantes em bibliotecas universitárias.  Belo Horizonte, 1991. 202p. Tese (Mestrado) – Escola de Biblioteconomia da Universidade Federal de Minais Gerais.

MOTTA, P. R.  Gestão contemporânea: a ciência e a arte de ser dirigente.  2.ed.  Record, 1991.  Cap. 7: A motivação pelos incentivos e autonomia individual,  p.186-201.

SCHENEIDER, L. O. D.  Evolução de acidentes de trabalho em profissionais de saúde. Controle de Infecção, n. 24, 1994.

SHINYASHIKI, G.T.  Uma abordagem quantitativa para o estudo da cultura organizacional e seus antecedentes. São Paulo: s.n., 1995.  78 p.  Dissertação (Mestrado em Administração) - Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo, 1995.

SILVA, G. B.  Enfermagem profissional: análise crítica.  São Paulo: Cortez, 1986. cap.3:  Medicina e enfermagem na sociedade brasileira, p.73-81.

WALTON, R.  Quality of working life: what is it?  Slon Management. Sloan Management Review, Massachusetts, v. 15, n. 1, p. 11-21, 1973.

ZANELLI, J. C.  O psicólogo nas organizações de trabalho.  Florianópolis-SC: Paralelo, 1994.  p. 27-34.

_____________.   Significado do trabalho.  Florianópolis:  Universidade Federal de Santa Catarina,  1996.  (mimeografada)  


MARIA DO CARMO LOURENÇO HADDAD

Professora Adjunta do Departamento de Enfermagem do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Estadual de Londrina, Diretora de Enfermagem do Hospital Universitário Regional do Norte do Paraná,  Mestre em Histologia pela UEL.

Endereço: Rua Alagoas, 1526, Edifício Campos Elíseos, Londrina-Pr., Fone: (43) 324 6030 – CEP 86020-360 – E-mail: haddad@sercomtel.com.br

 


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[1] Professora do Departamento de Enfermagem da Universidade Norte do Paraná, Universidade Estadual de Londrina e Diretora de Enfermagem do Hospital Universitário Regional do Norte do Paraná.

Endereço: Rua Alagoas, 1526, Edifício Campos Elíseos, Londrina-Pr., Fone: (43) 324 6030 – CEP 86020-360 – E-mail: haddad@sercomtel.com.br